a filosofia do copo suado

as rodelas de água iam secando umas sobre as outras. era suor de copo que brilhava no balcão de madeira e refletia nas suas extremidades todo o teto de possibilidades. toda semana sentado no mesmo lugar do bar. se olhasse com bastante cuidado, com uma lupa especial para acessar nanomemórias, dava pra perceber quantas rodelas de copo eu já molhei e sequei na mesma velocidade. eram dias presos em goles. eram sonhos vertidos em soluços. empurrando guela abaixo o medo de certas verdades mudas. naquela semi borda desenhada podia ver desenhos de aviões, bolas e castelos que viviam naquele baixo céu acima de mim. se esticasse o braço, eu poderia tocá-los. mas preferia ver uns rastros de sonho travestidos em uma psicodelia de cores distorcida nas rodelas de copo suado.

eleanor

desci apressada as escadarias na bedford. esperei impaciente o L que aquela hora da noite demorava mais do que de costume. entre jaquetas estilosas verde militar, cool under cuts e calças skinny vinho combinadas com botas de forro xadrez, eu enfiava meu sorriso de desgosto na echarpe amarela. assim que o primeiro trem apareceu entrei sem pestanejar para fugir da hipsterice exacerbada. na estacão seguinte percebi que tinha ido pra direção contrária. desci troquei de plataforma e esperei o próxmo trem. quando encostei na pilastra da estação, vi um músico do outro lado tocando um violão e aquelas gaitas de pescoço. foi então que chegou um bêbado muito bêbado. pegou o microfone do cara e começou a cantar eleanor rigby. a plataforma virou palco e nós, os hipsters solitários da madrugada, do outro lado da plataforma com duas linhas de trem entre a gente, não estávamos mais sozinhos. o arrepio do insólito nos uniu.